A Odontologia é reconhecida pelas diferentes abordagens e possíveis formas de tratamentos. Neste espaço, Sérgio Luís Scombatti avalia o uso de membranas absorvíveis e não absorvíveis na Periodontia.
Para o sucesso de técnicas de regeneração tecidual guiada (RTG), é indispensável o uso de uma barreira física (membrana) que impeça a migração de células dos tecidos epitelial e conjuntivo gengival para o local a ser regenerado, e mantenha o espaço sob ela para que o coágulo, associado ou não a substitutos ósseos, sofra as transformações necessárias no curso do processo regenerativo.
Nas primeiras décadas após o surgimento da RTG, houve um predomínio do uso das membranas não absorvíveis de politetrafluoretileno (PTFE), também conhecidas como membranas de teflon. O PTFE é um material inerte que apresenta excelente biocompatibilidade. Entretanto, as membranas não absorvíveis apresentam a desvantagem da necessidade de uma cirurgia para sua remoção e, com relativa frequência, sofrem exposições ao meio bucal, gerando complicações cirúrgicas com prejuízos à regeneração dos tecidos.
Assim, surgiram membranas sintéticas absorvíveis de polímeros diversos, como ácidos polilático e poliglicólico, dentre outros. Como materiais absorvíveis, tinham como ponto positivo evitar a necessidade de reabertura para sua remoção; como ponto negativo, um processo de absorção pelo organismo não tão inerte ao sítio em regeneração, muitas vezes, prejudicando a neoformação óssea ou de tecidos periodontais, pecando no quesito biocompatibilidade.
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Posteriormente, foram desenvolvidas e aperfeiçoadas as membranas de colágeno, que possuem origem animal (geralmente bovina ou suína). Produzidas a partir de estruturas como tendões, derme ou pericárdio, e compostas em geral por colágeno tipo I, atualmente as membranas colágenas são as mais utilizadas em procedimentos cirúrgicos em Periodontia. Diante da disponibilidade desses dois tipos de membranas no mercado (absorvíveis e não absorvíveis), é importante avaliar a literatura de estudos clínicos comparativos quando esses materiais são utilizados em procedimentos da Periodontia.
Lesões de furca
Em relação aos defeitos de bifurcação de Classe II, a literatura tem mostrado bons resultados com os dois tipos de membranas, sem grandes diferenças entre elas, analisando parâmetros como ganho de inserção clínica, redução de profundidade de sondagem e preenchimento ósseo vertical e horizontal do defeito1-2.
Um estudo de longo prazo³ , avaliando os resultados regenerativos seis meses e cinco anos após RTG em defeitos Classe II de bifurcação, comparando membrana absorvível versus não absorvível, mostrou ganhos do nível clínico de inserção estatisticamente significantes (p < 0,05) nos grupos membrana absorvível (aos seis meses: 2,0 ± 0,7 mm; aos cinco anos: 2,2 ± 0,9 mm) e membrana de PTFE (aos seis meses: 1,7 ± 0,8 mm; aos cinco anos: 1,6 ± 1,2 mm).
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Além disso, houve ganho de área óssea semelhante nos dois grupos, nos Repensando os biomateriais mesmos tempos de avaliação, medido por subtração radiográfica. Os autores concluíram que o tratamento de defeitos de bifurcação Classe II demonstrou estabilidade de ganho de inserção clínica após cinco anos, sem diferença estatisticamente significante entre os tipos de membrana utilizados.
Defeitos intraósseos
Analisando os defeitos intraósseos, estudos clínicos realizados para comparar membranas absorvíveis e não absorvíveis também não demonstraram diferenças estatisticamente significantes quanto à redução da profundidade de sondagem, ganho de nível clínico de inserção e preenchimento ósseo4-5.
Um estudo de longo prazo, com acompanhamento de dez anos6, não encontrou diferenças estatisticamente significantes na estabilidade do ganho de inserção vertical entre os dois grupos de membranas (absorvíveis e não reabsorvíveis) após terapia com RTG em defeitos intraósseos.
Conclusão
A literatura parece apontar que atualmente os dois tipos de membranas, quando bem indicadas e utilizadas clinicamente em Periodontia, possuem taxas de sucesso semelhantes em relação aos principais parâmetros periodontais avaliados. Desse modo, o profissional pode escolher a barreira absorvível ou não absorvível, de qualidade comprovada na literatura, com a qual tem melhor afinidade de trabalho, e estará respaldado cientificamente para realizar o procedimento clínico regenerativo periodontal.
Referências
1. Eickholz P, Kim TS, Holle R. Guided tissue regeneration with non-resorbable and biodegradable barriers: 6 months results. J Clin Periodontol 1997;24(2):92-101.
2. Karapataki S, Falk H, Hugoso A, Olsson G, Slotte C. Treatment of class II furcation defects using resorbable and non-resorbable GTR barriers. Swed Dent J 1999;23(5-6):173-83.
3. Eickholz P, Kim TS, Holle R, Hausmann E. Long-term results of guided tissue regeneration therapy with non-resorbable and bioabsorbable barriers. I. Class II furcations. J Periodontol 2001;72(1):35-42.
4. Corinaldesi G, Lizio G, Badiali G, Morselli-Labate AM, Marchetti C. Treatment of intrabony defects after impacted mandibular third molar removal with bioabsorbable and non-resorbable membranes. J Periodontol 2011;82(10):1404-13.
5. Karapataki S, Hugoson A, Falk H, Laurell L, Kugelberg CF. Healing following GTR treatment of intrabony defects distal to mandibular 2nd molars using resorbable and non-resorbable barriers. J Clin Periodontol 2000;27(5):333-40.
6. Pretzl B, Kim TS, Steinbrenner H, Dörfer C, Himmer K, Eickholz P. Guided tissue regeneration with bioabsorbable barriers: III 10-year results in infrabony defects. J Clin Periodontol 2009;36(4):349-56.

Doutor em Periodontia – FOB/USP; Livre-docente em Periodontia e professor do Depto. de CTBMF e Periodontia – Forp/ USP. Orcid: 0000-0002-6199-7348