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Motivação do paciente periodontal

Paciente periodontal: um dos papéis do cirurgião-dentista é o de estimular o paciente a manter a saúde bucal, processo que pode ser mais complexo do que o imaginado. 

A boa higiene bucal sempre foi considerada um dos pilares da saúde periodontal, que é alcançada, geralmente, pela combinação dos cuidados profissionais regulares realizados pelos periodontistas e pela boa higiene oral pessoal realizada pelos pacientes. Entretanto, deve-se lembrar que a placa representa apenas 20% do risco direto de se desenvolver uma periodontite. Os 80% restantes deste risco, direto ou indireto, vão depender de outros fatores modificadores das respostas do hospedeiro, que podem ser responsáveis pelo desenvolvimento das doenças periodontais 1-3.

Atualmente existe uma compreensão melhor sobre a importância da higiene oral na prevenção e tratamento das diversas formas de doenças periodontais. Embora saibamos que em algumas situações o controle de placa não será um fator determinante na progressão da doença, é importante frisar que, durante os últimos 50 anos, trabalhos experimentais, ensaios clínicos e várias pesquisas demonstraram nas mais diversas regiões do planeta que, de maneira geral, a efetiva remoção do biofilme é essencial para a saúde dental e periodontal, pois o controle de placa é uma forma de tratar e prevenir a gengivite, e é uma parte crítica de todos os procedimentos envolvidos no tratamento e prevenção das doenças periodontais 2.

Sabe-se que o sucesso do tratamento periodontal está inserido em uma equação, em que a principal variável é o paciente. A motivação do paciente ocorre pela elucidação de detalhes da sua condição oral e pode fazer a diferença no prognóstico do tratamento. O bom controle de placa facilita o retorno à estabilidade para pacientes com doenças periodontais e gengivais, preservando a saúde bucal pela vida. Desta forma, os mais variados recursos para informar o paciente sobre detalhes da sua condição oral devem ser utilizados não somente pelo dentista, mas principalmente por um técnico em saúde bucal (TSB), que é o profissional treinado especificamente para este tipo de abordagem.

Dentre estes recursos, pode-se destacar modelos, fotografias, desenhos, animações e vídeos. Edições informativas do profissional nas redes sociais também são muito válidas. Enviar vídeos próprios em listas de transmissão por aplicativos de comunicação, como o WhatsApp, ou fazer postagens nas redes sociais, como no Instagram, têm um grande alcance nos dias atuais. Desta forma, todos estes artifícios são importantes agentes de motivação do paciente. O uso destas ferramentas já não pode ser considerado uma ação opcional dos periodontistas, mas sim uma atividade obrigatória para quem quer alcançar o sucesso na motivação dos seus pacientes.

A responsabilidade pela adoção das técnicas de higiene bucal não se restringe apenas aos pacientes portadores das doenças periodontais. Uma vez que o periodontista está sendo remunerado para tratar estas doenças, é de sua responsabilidade e também da sua equipe de higienistas motivar e educar os seus pacientes. Caso esta motivação não esteja acontecendo e o paciente não esteja colaborando, cabe também a estes profissionais identificarem as razões desta falta de motivação e reeducar o paciente, através de novas abordagens mais criativas e estimulantes que venham a surtir o efeito desejado.

Muitas vezes, uma abordagem multidisciplinar, até mesmo com médicos psiquiatras ou psicólogos, pode ajudar na determinação de problemas que estão impedindo a colaboração do paciente. Problemas psicossomáticos são comuns em pessoas com dificuldades de se motivarem com cuidados individuais de saúde. Abandonar estes pacientes à própria sorte, sob a justificativa de que não estão colaborando na manutenção da higiene oral, não constitui a terapêutica mais ética quando nos deparamos com clientes desmotivados.

Cada paciente possui uma personalidade distinta, influenciada culturalmente pelo local onde vive e pelas realidades cotidianas que está vivendo. Assim, a motivação do paciente periodontal deve ser individual e personalizada. Padronizar a motivação dos pacientes é um erro, pois não há respeito às individualidades de cada ser humano. Torna-se necessário que o cirurgião-dentista identifique qual a melhor maneira de se conversar sobre a higiene oral e a colaboração com o tratamento, adotando um método específico para cada perfil de paciente. Muitas vezes, tornam-se necessárias algumas sessões de conversa e esclarecimentos antes de se realizar os procedimentos periodontais clínicos propriamente ditos.

Dentro deste contexto de motivação do paciente, existe um tópico bastante importante, que é a frequência ideal para se realizar uma higiene oral adequada. Curiosamente, alguns autores nos mostram que indivíduos bem treinados e supervisionados conseguem remover a placa visível, mantendo a saúde gengival através de um minucioso uso da escova e do fio dental apenas a cada 24 ou 48 horas3. Entretanto, estes achados estão bastante distantes da realidade clínica dos consultórios odontológicos, em que os resultados mais promissores ocorrem com a remoção de placa com uma frequência diária de duas a três vezes3-4. Estes dados clínicos demonstram que pacientes periodontais devem adotar hábitos de higiene oral mais específicos e mais consumidores de tempo do que os pacientes comuns1-4.

Dessa forma, concluiu-se que ainda deve-se dar uma grande importância à motivação dos pacientes periodontais, a fim de que os mesmos se sintam empolgados com os cuidados de higiene oral. Pacientes motivados melhoram a eficiência da remoção de placa, trazendo resultados satisfatórios aos tratamentos periodontais no longo prazo. Remover a placa adequadamente é mais importante do que removê-la parcialmente várias vezes ao dia. Esta eficiência na remoção de placa está diretamente relacionada com a importância que os clientes dão à manutenção da sua saúde bucal, o que somente irá ocorrer se os mesmos forem adequadamente motivados pelos periodontistas. 

Referências

1. Lang NK, Bartold MP. Periodontal health. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):S9-S16.

https://doi.org/10.1002/jper.16-0517

2. Chapple ILC, Mealey BL, Van Dyke TE, Bartold PM, Dommisch H, Eickholz P et al. Periodontal health and gingival diseases and conditions on an intact and a reduced periodontium: consensus report of workgroup 1 of the 2017 World Workshop on the Classification of Periodontal and Peri-Implant Diseases and Conditions. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):S68-S77.

https://doi.org/10.1111/jcpe.12940

3. Sanz M, Bäumer A, Buduneli N, Dommisch H, Farina R, Kononen E et al. Effect of professional mechanical plaque removal on secondary prevention of periodontitis and the complications of gingival and periodontal preventive measures: consensus report of group 4 of the 11th European Workshop on Periodontology on effective prevention of periodontal and peri-implant diseases. J Clin Periodontol 2015;42(suppl.16):S214-20.

https://doi.org/10.1111/jcpe.12367

4. Joshi S, Suominen AL, Knuuttila M, Bernabé E. Toothbrushing behaviour and periodontal pocketing: an 11-year longitudinal study. J Clin Periodontol 2018;45(2):196-203.

https://doi.org/10.1111/jcpe.12844