You are currently viewing O efeito do estresse na saúde bucal do paciente

O efeito do estresse na saúde bucal do paciente

A população brasileira é uma das mais estressadas do mundo e isso tem tudo a ver com Odontologia. Como isso afeta a saúde de seu paciente, de sua equipe e a sua própria vida?

Neste exato momento, a cabeça de seu paciente está fervendo com estresse: a inflação está acelerando, os criminosos estão cada vez mais violentos e o mercado de trabalho virou uma luta de foices. Até mesmo nas redes sociais, nos espaços virtuais criados para o entretenimento, os temas espinhosos assumiram o controle e tudo o que for dito será interpretado da pior maneira possível. Na política… bem, é melhor nem tocar nesse assunto.

Seu paciente está irritado, cansado e preocupado. Depois de praticamente dois anos de pandemia, é provável que ele tenha perdido parentes e amigos para a Covid-19. Nesse período, ele temeu pela própria vida, pela vida dos pais, do cônjuge, dos filhos. Muitos perderam parte dos salários, outros o emprego. Também há muitas histórias daqueles que perderam a paciência e desfizeram seus casamentos. Agora, todos correm para juntar os cacos e reconstruir suas vidas, mas como fica a saúde mental de seus pacientes (e a nossa) diante de tudo isso?

Embora seja um tema pouco debatido dentro do universo da Odontologia, esses quadros de ansiedade, estresse e depressão exercem um impacto significativo na saúde oral dos pacientes, reconhecidos como um fator etiológico importante na predisposição ou perpetuação de determinados problemas bucais, como periodontite, bruxismo, xerostomia, formação de úlceras e tabagismo. O estresse também pode se tornar um complicador quando combinado com outros fatores.

O Brasil está entre as populações mais ansiosas e emocionalmente estressadas do mundo. Trata-se de um problema crônico de saúde da nossa população, observado por diferentes instituições, como a World Health Organization e a International Stress Management Association, registrado em edições seguidas de diferentes levantamentos, com diferentes metodologias e objetivos. Portanto, a pandemia da Covid-19 e a atual crise econômica são apenas um capítulo da longa e dolorosa história de crises e desventuras que vem sendo escrita neste país, provavelmente, desde os tempos de Cabral.

Do ponto de vista individual, o estresse é uma defesa natural do corpo diante de qualquer tipo de ameaça, como episódios traumáticos, morte ou doença na família, acúmulo de dívidas, medo de violência, competição no trabalho etc. Não é difícil perceber que a vida nos grandes centros urbanos favorece esse tipo de situação, exigindo que todos estejam em constante estado de alerta, prontos para lutar pela sobrevivência.

Sob o efeito do estresse, o corpo aumenta a produção de hidrocortisona, cortisol e adrenalina, resultando em um efeito pró-inflamatório que pode potencializar problemas periodontais, por exemplo. Com a produção de saliva reduzida, a xerostomia ainda pode causar desconforto e desencadear outros problemas bucais. Adicionalmente, pessoas estressadas podem negligenciar seus cuidados habituais de higiene e saúde, consumir mais álcool, fast food e outros alimentos de forma desregrada. Por fim, como o cigarro também é frequentemente associado como um recurso para aliviar o estresse, algumas pessoas podem aderir ao tabagismo em um período de desequilíbrio emocional ou potencializar o uso do cigarro.

Impacto da pandemia

Diante de tanta pressão emocional desencadeada pela pandemia da Covid-19, muitos consultórios odontológicos perceberam o aumento de casos relacionados ao estresse.

“O estresse pode causar diversos tipos de sintomas, isolados ou múltiplos, com reflexos no corpo e no comportamento das pessoas, podendo também levar a problemas de relacionamento. A maioria das pessoas pode apresentar algum problema de saúde bucal relacionado ao estresse. O indivíduo pode apresentar, por exemplo, ao mesmo tempo, queda de cabelo e apartamento dental ou bruxismo”, explica Renata Faria, que é mestra e doutora em Prótese Dentária pela Unesp/SJC.

“Em minha experiência profissional, vejo que o apertamento dos dentes está entre os sintomas mais frequentes entre os meus pacientes sob efeito do estresse. Provavelmente, é uma forma de liberar a sua tensão”, conta Renata. “Nos últimos dois anos, vi muitos casos assim em meu consultório, causando fraturas de restaurações, de próteses, de dentes naturais e até fratura de raiz em dentes tratados endodonticamente, o que resultou na perda do elemento, que precisou ser extraído”.

“Também percebi que a pandemia levou muitas pessoas a mudarem seu estilo de vida, adotando o home office e passando muito mais tempo em casa, o que levou a um relaxamento da rotina de higiene bucal. Somando esse fator à pressão emocional intensa típica desse período, também encontrei casos de cáries múltiplas e infecção gengival entre meus pacientes”, finaliza ela.

Problemas frequentes

Embora a ideia de estresse esteja frequentemente relacionada à vida adulta, pacientes de qualquer idade podem manifestar esse problema, conforme lembra Guaracilei Maciel Vidigal Jr., professor adjunto de Implantodontia da Uerj. “O estresse afeta o organismo como um todo e leva a uma queda da imunidade dos indivíduos. Na cavidade oral, uma das formas mais clássicas dessa manifestação é na gengivite ulcerativa necrosante aguda (guna) – um problema que também pode estar relacionado a um quadro de deficiência nutricional. Já atendi casos de guna em, pelo menos, três pacientes jovens diferentes, coincidentemente, todos em fase de Vestibular. Ou seja, eram praticamente adolescentes”.

Sobre o tratamento desses casos, Vidigal Jr. explica o papel da Odontologia. “Nesses casos, o cirurgião-dentista pode até conversar com o paciente, mas o profissional fica limitado pelas circunstâncias de sua atuação na clínica odontológica, obviamente. Eu não poderia, por exemplo, eliminar o vestibular da vida de meus pacientes, mas pude conscientizá-los sobre a origem emocional de seu problema clínico e orientá-los sobre a higienização, o que ajudou bastante”.

“Também percebo que a xerostomia é um problema sério em pacientes sob o efeito do estresse, pois o fluxo salivar é um dos mais importantes mecanismos de defesa que temos em nossa boca. Paralelamente, outra alteração muito comum é o surgimento de lesões de herpes labial, que podem ser tratadas com o antiviral adequado”, finaliza Vidigal Jr.

Burnout: como anda a sua saúde mental e de sua equipe?

O Brasil passa por uma fase otimista na virada de ano para 2022, mas o longo período de incertezas por conta da pandemia deixou marcas importantes na saúde mental de muita gente. Os profissionais da Odontologia não estiveram imunes a essa intensa pressão emocional, pelo contrário, foram submetidos a meses com os consultórios vazios, precisaram reestruturar suas equipes e, depois, colocaram-se na linha de frente com alto risco de contaminação pela Covid-19.

O elevado nível de fatores adversos leva ao estresse, que é uma reação fisiológica do corpo às circunstâncias que exigem ajustes comportamentais. Se não acompanhado, o profissional pode sofrer de Burnout, ou seja, uma síndrome resultante de estresse crônico e que necessariamente tem origem no ambiente de trabalho.

Segundo Alessandra Salina Brandão, psicóloga clínica e doutora em Psicologia, a síndrome de Burnout é composta de três dimensões: exaustão emocional (sensação de esgotamento de Burnout: como anda a sua saúde mental e de sua equipe? recursos físicos e emocionais); despersonalização ou cinismo (reação negativa ou excessivamente distanciada em relação às pessoas que devem receber o cuidado/serviço); e baixa realização pessoal (sentimentos de incompetência e de perda de produtividade). “Essa condição está incluída na 11a Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), sendo conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho”, elucida Alessandra.

Com base em sua experiência como psicóloga clínica, a profissional notou um maior número de clientes vivenciando o Burnout nos últimos meses. Isso porque a experiência da pandemia se estendeu por um longo período e muitas pessoas estão lidando com situações estressantes de maneira crônica, como a invasão do espaço doméstico pelas atividades de trabalho, o medo de perder o emprego e os clientes por conta da crise financeira, e a dificuldade em dividir o tempo entre trabalho e cuidado dos filhos em homeschooling, entre outros fatores.

Além desse pacote de mudanças e preocupações, os profissionais da área de Saúde ainda precisam lidar diariamente com o medo e o risco de contaminação, um importante fator de estresse principalmente antes da vacinação. Estudos realizados em vários hospitais identificaram um volume acentuado de sintomas de depressão, ansiedade, insônia e angústia.

Como todo problema de saúde mental, a síndrome de Burnout não pode ser avaliada de forma particularizada, atribuindo-se as causas exclusivamente a possíveis dificuldades no ambiente de trabalho. A prevenção deve ser feita no nível institucional, por meio de políticas que visem à qualidade da saúde mental. Dessa forma, os donos de clínicas devem se preocupar também com a saúde mental de sua equipe.

A psicóloga alerta que, por ser uma condição resultante de uma situação de estresse crônica, ou seja, que se estendeu por um período, a pessoa deve testar algumas modificações em relação à sua interação com o trabalho assim que começar a perceber que está em sofrimento, evitando que o mal-estar emocional evolua para um quadro de esgotamento. “Por exemplo, se um professor começa a notar que o fato de trabalhar nos finais de semana para escrever os seus artigos científicos está contribuindo para se sentir cansado e estressado porque essa prática o impede de ter lazer, ele pode começar a fazer algumas escolhas diferentes, como reservar os momentos de descanso para evitar um quadro de esgotamento maior”, exemplifica.

As manifestações do Burnout podem se apresentar por meio de experiências emocionais diversas, entre elas: sofrimento significativo para manter a frequência ao trabalho; pensamentos recorrentes sobre desistir do trabalho, mesmo com uma história anterior de satisfação com a vida profissional; percepções de menor valor relacionadas às próprias competências e habilidades; maior número de faltas; e aumento do risco de acidentes de trabalho.

Alessandra acrescenta que esse sofrimento emocional pode interferir na qualidade das relações interpessoais. “Uma pessoa com sintomas de esgotamento físico e mental pode diminuir o envolvimento em atividades sociais ou passar a se dedicar menos às suas relações mais íntimas, como interações com cônjuge ou filhos, o que consequentemente comprometerá o acesso aos ganhos inerentes a essa dimensão da vida, como afeto e acolhimento”, pondera.

Para acompanhar as outras matérias de capa da ImplantNews, clique aqui.