Desafios para o ensino da tecnologia digital na Odontologia

Desafios para o ensino da tecnologia digital na Odontologia

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Tecnologia digital na Odontologia: o conteúdo ensinado nas instituições de ensino acompanha o ritmo das transformações tecnológicas?

Passados 40 anos (sim, quatro décadas) desde o surgimento da tecnologia digital na área da reabilitação oral, como esta realidade está refletida no ensino da Odontologia nas universidades? Os currículos e conteúdos ensinados nas instituições de ensino acompanham o ritmo das transformações tecnológicas? Oferecemos o mesmo nível de ensino nas tecnologias digitais que oferecemos ao longo dos anos com as técnicas tradicionais (analógico)?

A mensagem de que o digital é mais fácil, mais rápido e de melhor qualidade foi buzinada em nossos ouvidos repetidamente. Eu concordo com tal ideia, mas acredito também que para podermos usufruir de tais benefícios do digital é necessário ensinar os profissionais a utilizar a tecnologia, a potencializá-la e melhorá-la, conforme fizemos durante outras tantas décadas com os métodos tradicionais. E é aqui que entra a universidade. Afinal, cabe justamente às instituições de ensino superior o papel de estar na vanguarda, procurando alternativas e apontando novos caminhos, funcionando como um polo agregador de ideias inovadoras e tendências na prática cotidiana. É isso que vemos acontecer na prática?

Concretizando as minhas dúvidas, aponto três situações que devem merecer alguma reflexão. Desde o desenvolvimento da Implantodontia que a fase de planejamento da reabilitação protética assumiu uma importância crucial no sucesso dos tratamentos. Prever o final de cada tratamento e agir de acordo com o melhor protocolo para, efetivamente, alcançá-lo, passou a ser decisivo no resultado e longevidade das reabilitações orais.

A evolução dos equipamentos de radiologia e digitalização do crânio e da face, bem como o desenvolvimento de softwares de planejamento a eles associados, permitem hoje antecipar muitas etapas do tratamento de reabilitação oral. Tais softwares e equipamentos estão interligados com a fase de produção de próteses e guias feitos sob medida, seja em uma reabilitação conservadora da estética do sorriso ou em uma reabilitação extensa total bimaxilar.

São múltiplas as ferramentas digitais utilizadas nas fases de planejamento que hoje estão disponíveis, e o treinamento para a sua utilização é disponibilizado por empresas da Odontologia ou por profissionais, em cursos presenciais ou on-line.

Quantas destas formações são certificadas por qualquer entidade que garanta a sua qualidade nos conteúdos e na implementação de boas práticas? Na universidade, aos cursos de graduação, ela chega muitas vezes em formato teórico e, nos cursos de pós-graduação, como mera demonstração, não sendo praticada e aprofundada a sua utilização. Já não seria tempo de tornar o uso de ferramentas digitais e a prática do planejamento integrado uma disciplina base do currículo dos cursos de Odontologia? Isso permitiria desde cedo um contato mais efetivo com tais ferramentas e também criaria na Odontologia uma mentalidade direcionada para a resolução dos problemas do paciente de forma mais holística.

A moldagem digital surgiu na década de 1990 e recebeu uma série de aprimoramentos que tornaram os equipamentos mais portáteis e precisos. Existem evidências científicas sobre as suas qualidades e limitações. Nos últimos cinco anos, ganhou a atenção da indústria para potenciar e massificar a sua utilização. E, no ensino acadêmico, qual é a taxa de utilização destes equipamentos ao nível do ensino pré-graduado?

Será que estamos dedicando atenção demais às técnicas tradicionais de moldagem quando o futuro estaria evidentemente destinado à moldagem digital? Devemos continuar concentrando nossas energias no ensino dessa técnica em cursos de pós-graduação, que têm um publico específico, fazendo destes profissionais especialistas de uma área que já deveria ser transversal a todos? Faz sentido que o treinamento dos novos profissionais continue a ser majoritariamente em técnicas analógicas, quando à saída da faculdade serão pressionados a pensar e agir de forma digital? Parece-me que não. É evidente a necessidade de uma formação base alicerçada em técnicas de digitalização intraoral.

Apesar do digital ter entrado na Odontologia através da vertente clínica, foi na área laboratorial, através das tecnologias CAD/CAM disponibilizadas para laboratório, que a tecnologia atingiu um rápido desenvolvimento e massificação destes processos. Associado a este desenvolvimento tecnológico, registrou-se também uma evolução exponencial de materiais para a produção de próteses dentárias, nomeadamente polímeros, compósitos e cerâmicas. Apesar da tecnologia digital permitir a realização de restaurações pelo próprio cirurgião-dentista, a qualidade das mesmas continua a depender de um conjunto de procedimentos técnicos laboratoriais que são complexos e que requerem conhecimentos vastos e uma prática continuada para os aperfeiçoar, apenas ao alcance dos técnicos em prótese dentária (TPDs).

Apesar de sua formação ser eminentemente técnica, a verdade é que o conhecimento que hoje se exige de um TPD é cada vez mais de domínio científico em variadas áreas. Em muitos países, o ensino universitário já é uma exigência para o acesso à profissão de TPD e o envolvimento em investigação científica é uma realidade através de programas de doutorado nesta área.

O conhecimento sobre o universo clínico-laboratorial e das propriedades dos materiais é um fator decisivo para o sucesso das reabilitações orais. Aqueles que forem capazes de dominar tais informações na fase de formação acadêmica estarão sempre em vantagem para fazer melhor. O universo digital é uma ótima ferramenta para casar estes dois mundos no ensino universitário, aproveitando as suas sinergias no compartilhamento mútuo de conhecimento. Felizmente, os técnicos estão saindo do anonimato e, ao lado dos clínicos, estão assumindo um papel crescente nas universidades, quer na partilha de conhecimento técnico científico, quer na participação em projetos de investigação, muito associados à vertente digital.

Será que as instituições de ensino irão apostar decisivamente nesta parceria e criar condições efetivas para que ela floresça e frutifique? Tenho minhas dúvidas, este é o meu desejo para o futuro da ciência e da arte dentária.

Feitas estas considerações, termino com um apelo. Dirijo-me à indústria, fonte inesgotável de anseios, mas também de meios tecnológicos e financeiros. Efetivamente, os dois últimos vão faltando à universidade, limitando-a em sua capacidade criativa e inventiva, acentuam-se na exata medida em que a revolução digital vai acelerando. Hoje, mais do que nunca, as parcerias entre a indústria e a universidade assumem um papel decisivo.

No meu entender, para que esta aposta seja efetiva, é necessária uma mudança de paradigma na indústria, que deveria disponibilizar seus equipamentos, materiais e softwares para as universidades. A criação de uma relação de confiança no conhecimento e domínio técnico dos equipamentos, soluções digitais e materiais ao longo da curva de aprendizagem acadêmica será sempre um meio de divulgação eficiente. No domínio digital, esta aposta é ainda mais fácil de fazer, envolvendo menos meios e estando ao alcance de um “click”. Assim o queiram.

Coordenação:

Guilherme SaavedraGuilherme Saavedra
Professor assistente do Depto. de Materiais Odontológicos e Prótese, e professor da especialidade de Prótese Dentária do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – ICT-Unesp; Professor visitante da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, em Portugal.
Orcid: 0000-0001-7108-0544.

Autor convidado:

João Carlos da Silva RoqueJoão Carlos da Silva Roque
Doutor em Ciências e Tecnologias da Saúde na área de Prótese Dentária – Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, em Portugal; Licenciado em Ciências da Educação na área de Saúde – Ferris State University, EUA; Mestre em Pedagogia no Ensino Superior – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, em Portugal.

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