Gengivite ocasionada por fatores anatômicos locais
Vista frontal do caso, com sangramento após a sondagem.

Gengivite ocasionada por fatores anatômicos locais

Compartilhar

Marco Bianchini destaca os fatores anatômicos locais dos dentes são um dos fatores de risco que, muitas vezes, não recebem a devida atenção.


A gengivite é a manifestação inicial de uma inflamação no periodonto e que, na maioria dos casos, ocorre pelo acúmulo de biofilme. Assim, a gengivite induzida por biofilme é definida como “uma lesão inflamatória resultante de interações entre o biofilme da placa dentária e a resposta imunoinflamatória do hospedeiro1. Geralmente, essa inflamação permanece confinada à gengiva e é reversível pela redução dos níveis de placa. Consequentemente, o controle desta placa bacteriana é essencial para evitarmos que uma gengivite apareça precocemente.

Sabe-se também que um dos maiores problemas para se estabelecer o correto controle do biofilme são os elementos que auxiliam na retenção deste biofilme ao redor dos dentes. Alguns destes elementos são conhecidos como fatores de risco locais para gengivite. São eles: excessos de restaurações, próteses mal adaptadas, apinhamentos dentais e componentes anatômicos naturais. Se estes fatores locais não forem removidos, poderão, em algumas situações, evoluir para uma destruição maior da inserção periodontal.

Os componentes anatômicos naturais dos dentes são um dos fatores de risco locais que, muitas vezes, não recebem a devida relevância dos clínicos. Estas características anatômicas, como dens in dente, invaginações dentinárias, ranhuras, odontodisplasias, pérolas de esmalte, sulcos de desenvolvimento, reabsorções, reentrâncias radiculares externas etc., que são próprias da individualidade e das características genéticas de cada paciente, também podem facilmente favorecer o acúmulo de biofilme na margem gengival, permitindo a aderência e maturação do biofilme1-2.

A presença destes fatores locais anatômicos retentivos de placa impede o controle adequado por parte do paciente, pois dificulta extremamente a higiene pessoal. Além disso, dificulta também a remoção mecânica (raspagem) eficiente feita pelo cirurgião-dentista, uma vez que os depósitos irão se acumular em áreas de difícil acesso. Podemos considerar que tais elementos são fatores locais poderosos que podem agravar situações que seriam facilmente controláveis.

Outro aspecto interessante destes fatores anatômicos de retenção de biofilme é que eles também podem favorecer o aparecimento de abscessos gengivais/periodontais. Na maioria das vezes, isto ocorre em um sulco raso que é obstruído por algum corpo estranho, facilitando o acúmulo de biofilme na área do sulco e um consequente abscesso2. Desta forma, sulcos radiculares, reentrâncias na raiz e invaginações dentinárias podem ser a porta de entrada para o acúmulo de biofilme e a consequente formação de um abscesso. O caso clínico aqui descrito demonstra a presença de uma depressão anatômica em forma de sulco na face vestibular de um incisivo central superior direito, já com uma gengivite local e apresentando-se como um fator de risco local, que deve ser criteriosamente controlado, a fim de se evitar a sua evolução para planos periodontais mais profundos.

Como forma de tratamento para este caso, optou-se por uma terapia não cirúrgica de suporte trimestral, a fim de acompanhar com mais regularidade o acúmulo de biofilme na área e uma possível evolução ou estagnação do processo. Como não havia alterações periodontais significativas, uma abordagem cirúrgica com o aplainamento da superfície radicular, onde está presente o sulco, foi por hora descartada.

O diagnóstico precoce de uma periodontite ainda é um dos desafios da era moderna3-4. A associação de um minucioso exame clínico periodontal tradicional com imagens computadorizadas pode identificar corretamente os componentes anatômicos locais que favorecem o acúmulo de biofilme, mas que, se forem adequadamente controlados, certamente irão prevenir maiores destruições periodontais na sua forma mais localizada.

Referências
1. Chapple ILC et al. Periodontal health and gingival diseases and conditions on an intact and a reduced periodontium: consensus report of workgroup 1 of the 2017 World Workshop on the Classification of Periodontal and Peri-Implant Diseases and Conditions. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):S68-S77.
2. Herrera D, Retamal-Valdes B, Alonso B, Feres M. Acute periodontal lesions (periodontal abscesses and necrotizing periodontal diseases) and endo-periodontal lesions. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):S78-S94.
3. Papapanou PN, Susin C. Periodontitis epidemiology: is periodontitis under-recognized, over-diagnosed, or both? Periodontol 2000 2017;75:45-51.
4. Slots J. Periodontitis: facts, fallacies and the future. Periodontology 2000 2017;75:7-23.

Leia também “Quando usar técnicas regenerativas em Periodontia?”, coluna de Marco Bianchini no VMBlog.

Marco BianchiniMarco Bianchini
Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros “O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia” e “Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares”.