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As opções de tratamento não cirúrgico parecem pouco promissoras no controle da doença. (Imagem: Depositphotos)

Existe algum tratamento previsível para a peri-implantite? Conseguiremos obter a “cura”?

Jamil Shibli ressalta que o tratamento da peri-implantite não é uma tarefa simples. Será que é possível preveni-la definitivamente? 

A peri-implantite é uma condição patológica caracterizada clinicamente pela inflamação dos tecidos conjuntivos peri-implantares e perda progressiva de tecido ósseo. Ela não é um evento raro e, se não for diagnosticada e tratada rapidamente, pode levar à perda do implante.

O mercado global de implantes dentários foi avaliado em US$ 3 bilhões em 2016, com mais de 9,5 milhões de implantes colocados em todo o mundo, e a prevalência de problemas biológicos relacionados a restaurações suportadas por implantes dentários está crescendo na mesma proporção. Existe uma preocupação crescente com esse cenário, no qual a incidência de doenças peri-implantares pode afetar 43% dos implantes após cinco anos em função. À medida que a prevalência dessa condição continua a crescer, é de extrema importância encontrar tratamentos eficazes para a peri-implantite.

O tratamento da doença não é uma tarefa simples e depende de uma mudança marcante no perfil microbiano ao redor dos implantes afetados, incluindo a redução de vários patógenos, a maioria deles já associada à doença periodontal. As opções de tratamento não cirúrgico parecem pouco promissoras no controle da doença, mesmo em associação com outros tratamentos adjuvantes.

A descontaminação das superfícies dos implantes dentários por meio de terapia a laser de alta e baixa intensidade com CO2, Nd:YAG, Er:YAG, Er,Cr:YSGG e GaAlA foi testada em vários ensaios clínicos, com resultados muito promissores. A irradiação com laser remove não apenas o tecido mole inflamatório ao redor da bolsa peri-implantar, mas também descontamina o implante sem danificar a superfície de titânio (Figura 1) e a morfologia do implante dentário, como ocorre com curetas, brocas e jatos de bicarbonato. Sugere-se ainda que a irradiação com laser da superfície do implante dentário como tratamento adjuvante ao debridamento mecânico pode aumentar o efeito antimicrobiano e inibir a fixação/colonização bacteriana.

Em tempo, a associação de metronidazol sistêmico (MTZ) e amoxicilina (AMX) com raspagem e alisamento radicular (RAR) para a terapia periodontal não cirúrgica demonstrou ser muito eficaz no tratamento da periodontite, principalmente em casos avançados. Este protocolo de tratamento leva a benefícios clínicos e microbiológicos em relação aos obtidos apenas com a RAR, incluindo reduções significativas em bolsas profundas, ganho de inserção clínica, redução de patógenos periodontais importantes (ex. Porphyromonas gingivalis, Aggregatibacter actinomycetemcomitans e Tannerella forsythia) e aumento nas proporções de espécies benéficas.

No entanto, um estudo recente do nosso grupo1 mostrou que este protocolo terapêutico de debridamento não cirúrgico combinado com MTZ + AMX não gera benefícios semelhantes no tratamento da peri-implantite. Esta ausência de eficácia pode ocorrer devido a dificuldades mecânicas na descontaminação das roscas do implante. Assim, pode-se sugerir que o tratamento eficaz da peri-implantite exigiria um debridamento associado à cirurgia a retalho. Os ensaios clínicos aleatorizados (RCT) que testaram o debridamento associado à cirurgia a retalho com outros protocolos de antibióticos, como AMX2 ou azitromicina3 , não mostraram vantagens significantes no uso de antibióticos.

Um estudo de coorte4 mostrou que um protocolo anti-infeccioso, incluindo acesso cirúrgico, descontaminação da superfície do implante e MTZ + AMX sistêmico, foi eficaz para manter a estabilidade do nível ósseo ou ganho ósseo por até um ano do acompanhamento de 36 implantes em 24 pacientes parcialmente dentados com peri-implantite moderada a avançada. No entanto, até o momento, nenhum RCT controlado por placebo testou os possíveis benefícios do MTZ + AMX sistêmico em combinação com o debridamento associado à cirurgia a retalho no tratamento da peri-implantite.

Alguns casos tratados com essa abordagem têm apresentado resultados interessantes, mesmo que ainda com avaliações em um curto espaço de tempo (seis meses de controle), que certamente serão muito importantes para estudos futuros, assim como os resultados longitudinais. Embora tenha iniciado em 1998 meus estudos sobre o tratamento das peri-implantites, muito ainda precisa ser avaliado e considerado, uma vez que o paciente ainda precisará da saúde peri-implantar de suas restaurações implantossuportadas.

Referências

1. Shibli JA, Ferrari DS, Siroma RS, Figueiredo LC, Faveri M, Feres M. Microbiological and clinical effects of adjunctive systemic metronidazole and amoxicillin in the non-surgical treatment of peri-implantitis: 1 year follow-up. Braz Oral Res 2019;33(suppl.1):e080.

https://doi.org/10.1590/1807-3107bor-2019.vol33.0080

2. Carcuac O, Derks J, Charalampakis G, Abrahamsson I, Wennström J, Berglundh T. Adjunctive systemic and local antimicrobial therapy in the surgical treatment of peri-implantitis: a randomized controlled clinical trial. J Dent Res 2016;95(1):50-7.

https://doi.org/10.1177/0022034515601961

3. Hallström H, Persson GR, Lindgren S, Renvert S. Open flap debridement of peri-implantitis with or without adjunctive systemic antibiotics: a randomized clinical trial. J Clin Periodontol 2017;44(12):1285-93.

https://doi.org/10.1111/jcpe.12805

4. Heitz-Mayfield LJA, Salvi GE, Mombelli A, Faddy M, Lang NP. Anti-infective surgical therapy of peri-implantitis. A 12-month prospective clinical study. Clin Oral Implants Res 2012;23(2):205-10.

https://doi.org/10.1111/j.1600-0501.2011.02276.x