Desgaste e biocorrosão das cerâmicas
Característica multifatorial da biocorrosão das cerâmicas.

Desgaste e biocorrosão das cerâmicas

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Renata Marques de Melo conta que a biocorrosão das cerâmicas é a perda do material como resultado das interações eletroquímicas com o meio bucal.

Sabemos que o desgaste provocado por restaurações cerâmicas em dentes antagonistas ocorre de maneira proporcional à dureza do material restaurador, pois a velocidade do desgaste aumenta se as durezas dos materiais envolvidos forem muito diferentes1. Podemos dizer, portanto, que a zircônia, por ser o material cerâmico mais duro atualmente, seria o mais nocivo à preservação do esmalte dentário. Isso ocorre realmente?

A dureza do material é apenas um dos vários fatores que podem afetar o desgaste do dente. Essa é a constatação de uma revisão sistemática1 com estudos clínicos e in vitro, na qual as cerâmicas mais moles (feldspáticas/glazes), por vezes, levaram à maior remoção de esmalte em comparação aos materiais mais duros. Segundo os autores, as zircônias podem desgastar o esmalte, mas é mais provável que isso aconteça devido às irregularidades da superfície, por falta de polimento adequado do material. Portanto, o bom polimento superficial minimiza o desgaste do antagonista. Vale ressaltar que a zircônia, mesmo que recoberta com glaze, precisa ser polida, pois a lisura superficial é logo perdida com o desgaste do recobrimento2.

O que poderia explicar, então, o desgaste dentário mais acentuado causado pelas cerâmicas moles? A resposta não é simples, pois controlar todos os possíveis fatores etiológicos do desgaste em um único trabalho parece impossível.

A “biocorrosão” da cerâmica, isto é, a perda do material como resultado das interações eletroquímicas com o meio bucal, é pouco conhecida e, possivelmente, um importante agente causal3. Trata-se de um fenômeno mais explorado nas interfaces de parafusos de implantes e pilares, no qual a presença de carga e a movimentação dos componentes levam à perda de massa e afrouxamento de juntas. A degradação enfraquece estruturalmente o metal ou cerâmica do implante, ao mesmo tempo em que libera íons metálicos e partículas que também podem causar danos aos tecidos subjacentes, como inflamação.

De forma semelhante ao que ocorre com os implantes, a corrosão de restaurações cerâmicas devido à umidade, variações de pH e à presença de microrganismos, combinados à atrição das superfícies e carga, exacerbaria a perda do material cerâmico para o meio. Dentre as consequências, estariam a diminuição das propriedades mecânicas do material e a liberação de resquícios cerâmicos abrasivos para o esmalte.

Enquanto o enfraquecimento do material é gerado pelo crescimento lento de defeitos devido à corrosão em meio úmido, na presença de carga4-5, as partículas produzidas pela corrosão funcionariam como um terceiro “corpo” entre cerâmica e dente, desgastando-o. Dessa forma, especula-se que o material mais nocivo ao antagonista não seja o mais duro, como a zircônia, mas a cerâmica mais frágil, a vítrea. A explicação para tal fenômeno poder ser que este é um material mais corrosível no ambiente bucal hostil. E, enquanto a literatura não apresenta estudos de desgaste do esmalte mais controlados, a recomendação continua sendo o bom polimento das restaurações cerâmicas e o controle dos riscos relacionados ao paciente1.

Referências

1. Hmaidouch R, Weigl P. Tooth wear against ceramic crowns in posterior region: a systematic literature review. Int J Oral Sci 2013;5:183-90.
2. Alaa HA, Sabrah N, Cook B, Luangruangrong P, Hara AT, Bottino MC. Full-contour Y-TZP ceramic surface roughness effect on synthetic hydroxyapatite wear. Dental Materials 2013;29(issue 6).
3. Cruz HV, Souza JCM, Marques M, Rocha LA. Tribocorrosion and bio-tribocorrosion in the oral environment: the case of dental implants. In book: biomedical tribology. Publisher: Nova Science Publishers. Inc. editors: J. Paulo Davim.
4. Melo RM, Pereira C, Ramos NC et al. Effect of pH variation on the subcritical crack growth parameters of glassy matrix ceramics. Int J Appl Ceram Technol 2019;16:2449-56.
5. Ricco P, Ramos NC, Campos TMB, Soares VO, Boas MOCV, Marinho RMM. The roles of microstructure and surface energy on subcritical crack growth in glass-ceramics. Ceramics International 2020 [On-line]. Disponível em <https://doi.org/10.1016/j.ceramint.2020.11.025>.

autora Renata Marques de Melo
Renata Marques de Melo
Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.
Orcid: 0000-0003-0752-6294.