Células-tronco mesenquimais na Implantodontia
Células-tronco mesenquimais têm características multipotentes com alta capacidade de diferenciação em várias linhagens. (Imagem: Depositphotos)

Células-tronco mesenquimais na Implantodontia

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Células-tronco mesenquimais: a engenharia tecidual demonstra uma possibilidade confiável como alternativa estratégica para a regeneração óssea. 

A Odontologia está permanentemente procurando por alternativas biológicas e mecânicas para o tratamento de casos em que não existe disponibilidade óssea para ancoragem de implantes. O objetivo é reduzir a ocorrência de complicações, morbidade pós-operatória e resultados indesejáveis1. Por isso, os avanços no campo das terapias regenerativas se utilizam dos princípios de engenharia, biologia e ciências clínicas no desenvolvimento de substitutos biológicos, a fim de manter, restaurar e melhorar a função de órgãos e tecidos2.

O conceito da tríade que compõe a engenharia tecidual está embasado na capacidade da regeneração, baseando-se no manejo da presença de células-tronco, desenvolvimento de scaffolds (arcabouço ou matriz que criam uma base para orientação da arquitetura tecidual) e substâncias com fatores de crescimento e diferenciação tecidual2. As células-tronco mesenquimais (CTMs) possuem características multipotentes com alta capacidade de diferenciação em várias linhagens teciduais3, podendo contribuir com grande potencial no papel terapêutico da reparação e reconstrução em múltiplos tecidos4.

A medula óssea é a principal fonte de células-tronco mesenquimais, podendo ser obtidas a partir da aspiração da crista do ilíaco. O volume dessas células pode variar de um indivíduo para o outro, constituindo-se apenas uma pequena porcentagem do material aspirado, sendo necessária uma centrifugação após a coleta para aumentar a concentração de células nucleadas e mesenquimais. Esse processo é essencial para a obtenção de um material que proporcionará uma elevada formação de osteoblastos, potencializando o processo de regeneração óssea4.

Ou seja, a utilização de técnicas de concentração de células-tronco mesenquimais resulta no maior predomínio das células nucleadas do aspirado, podendo ser efetuado através da técnica laboratorial de sistema aberto, utilizado por um sintético polissacarídeo (Ficoll), para o isolamento das células mononucleadas. Também existe o sistema fechado, em que o aspirado é centrifugado, resultando em um concentrado de medula óssea (Bone Marrow Aspirate Stem Cell Concentrate, ou BMAC) apropriado para uso clínico em cirurgias5.

A literatura demonstra que a utilização de BMAC para regeneração óssea é viável na Implantodontia, possibilitando a instalação de implantes dentários. Em casos clínicos em que existe a necessidade de levantamento de seio maxilar, o BMAC demonstra ser benéfico quando associado com enxerto xenógeno, podendo regenerar uma quantidade equivalente de novo osso neoformado em um período de seis meses6.

Do mesmo modo, para casos de reconstrução de pré-maxila atrófica, quando associado com enxerto xenógeno, o BMAC demonstrou um maior aumento na tendência de mineralização óssea após quatro meses7. O BMAC, quando associado a uma matriz reabsorvível, possui propriedades de osteoindução, osteocondução e osteogênese, devido ao povoamento das células-tronco mesenquimais no enxerto com osteoblastos.

Em contrapartida, a utilização de apenas o aspirado de medula óssea sem centrifugação e sem um arcabouço mecânico em alvéolo pós-extração de dentes anteriores superiores evidenciou, dentro de um período de seis meses, uma contribuição no reparo do osso alveolar, por minimizar a perda da quantidade de espessura e altura óssea8.

O uso dessas técnicas para obtenção das CTMs no foco de regeneração óssea é frequentemente simples. Trata-se de uma técnica segura, menos invasiva, mais rápida e conservadora, quando comparada com a obtenção de osso autógeno, o que significa uma redução considerável na morbidade pós-operatória ao paciente4-5.

A engenharia tecidual demonstra uma possibilidade confiável como alternativa estratégica para a regeneração óssea na Implantodontia. Apesar dos resultados favoráveis, é preciso avaliar o custo-benefício de investimento para aquisição do BMAC no consultório, assim como a segurança do procedimento para o paciente.

Referências
1. Salgado AJ, Coutinho OP, Reis RL. Bone tissue engineering: state of the art and future trends. Macromol Biosci 2004;4:743-65.
2. Egusa H, Sonoyama W, Nishimura M, Atsuta I, Akiyama K. Stem cells in dentistry – Part II: clinical applications. J Prosthodont Res 2012;56:229-48.
3. Baksh D, Song L, Tuan RS. Adult mesenchymal stem cells: characterization, differentiation, and application in cell and gene therapy. J Cell Mol Med 2004;8:301-16.
4. Imam MA, Holton J, Ernstbrunner L, Pepke W, Grubhofer F, Narvani A et al. A systematic review of the clinical applications and complications of bone marrow aspirate concentrate in management of bone defects and nonunions. Int Orthop 2017;41:2213-20.
5. Sauerbier S, Stricker A, Kuschnierz J, Buhler F, Oshima T, Xavier SP et al. In vivo comparison of hard tissue regeneration with human mesenchymal stem cells processed with either the FICOLL method or the BMAC method. Tissue Eng Part C 2010;16:215-23.
6. Pasquali PJ, Teixeira ML, Oliveira TA, Macedo LGS, Aloise AC, Pelegrine AA. Maxillary sinus augmentation combining Bio-Oss with the bone marrow aspirate concentrate: a histomorphometric study in humans. Int J Biomater 2015:121-286.
7. Pelegrine AA, Teixeira ML, Sperandio M, Almada TS, Kahnberg KE, Pasquali OJ et al. Can bone marrow aspirate concentrate change the mineralization pattern of the anterior maxilla treated with xenografts? A preliminary study. Contemp Clin Dent 2016;7:21-6.
8. Pelegrine AA, da Costa CES, Correa MEP, Marques Jr. JFC. Clinical and histomorphometric evaluation of extraction sockets treated with an autologous bone marrow graft. Clin Oral Implants Res 2010;21:535-42.

Leia também “A relação entre enxertos ósseos e peri-implantares”, coluna de Elcio Marcantonio Jr. na revista ImplantNewsPerio.

Coordenação:

Elcio Marcantonio Jr.Elcio Marcantonio Jr.
Professor titular das disciplinas de Periodontia e Implantodontia, e coordenador do curso de especialização em Implantodontia – FOAr/Unesp; Professor colaborador do Ilapeo.
Orcid: 0000-0002-9660-4524.


Autora convidada:

Ísis de Fátima Balderrama
Ísis de Fátima Balderrama
Cirurgiã-dentista – PUC/PR; Especialista em Periodontia e mestra em Reabilitação Oral – FOB/USP; Estágio no Depto. de Periodontia – Universidade de Malmö, Suécia; Doutoranda em Implantodontia – FOAr/Unesp.
Orcid: 0000-0002-8606-9054.