Camada a camada, os segredos dos materiais cerâmicos em um elemento protético

Camada a camada, os segredos dos materiais cerâmicos em um elemento protético

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David Morita mostra a melhor forma para obter um resultado natural a partir de uma aplicação com o menor número de massas de cerâmica possível.

Desta vez venho falar sobre um assunto que durante muito tempo pra mim foi confuso quando iniciei minhas primeiras aplicações de porcelana, que é o manejo das inúmeras massas de cerâmica e seus pigmentos.

Lidar com um material cerâmico requer habilidade e treinamento. Além do mais, conhecer o sistema de cerâmica que tenha eleito é de suma importância para se desenvolver trabalhos bem elaborados. Possuir o máximo dos recursos do sistema de cerâmica colabora diretamente com os melhores resultados que se pode obter com seu sistema.

Nesta edição, não pretendo falar sobre como usar os recursos de um sistema. Vamos deixar isso para outra hora. Quero falar primeiramente de como podemos obter um resultado natural a partir de uma aplicação com o menor número de massas possível.

Irei usar apenas quatro massas de cerâmica para aplicar e produzir uma coroa de cerâmica. Dentina opaca, dentina, incisal e uma massa opalescente para finalizar o dente.

Quando realizamos trabalhos personalizados, é preciso ter em mente que uma série de elementos devem ser utilizados para alcançar um resultado próximo ao natural. Para isso, realizamos a tomada de cor, fotografias e, às vezes, atendimento presencial, entre muitos outros recursos.

Usar também os recursos do sistema durante a aplicação da cerâmica irá contribuir para um resultado sempre mais natural. Mas isso dependerá da habilidade e conhecimento do material. Dentro de um sistema é comum poder misturar as cores entre si e incrementar as cores das massas de cerâmica com os pigmentos do sistema. Estes corantes potencializam as cores das cerâmicas. Incrementar a massa de cerâmica com pigmento pode ser interessante por possibilitar a diminuição da camada de porcelana e, mesmo assim, atingir uma cor com potencial suficiente para reproduzir o tom desejado e não ocupar espaço demasiado no trabalho em reconstrução. Vale lembrar que a mistura sugerida acima deve levar em conta a compatibilidade do sistema e a indicação do fabricante.

Os dentes naturais são estruturas magníficas e belas demais para serem reproduzidas com apenas uma camada de dentina e outra de incisal de porcelana. Não, isso não é possível. Os materiais cerâmicos são muito compatíveis com os dentes, mas ainda precisam de sobreposição de camadas em múltiplas cores para reproduzir as propriedades óticas dos elementos naturais. Existe limitação entre um material artificial e o material de um dente. Evidentemente, isso não quer dizer que não é possível utilizar os atuais materiais para imitar tão bem a natureza, a ponto de que não seja possível distinguir o que é natural do que é artificial.

A dentina opaca terá o papel de mascarar a opacidade da estrutura de dissilicato de lítio, que por sua vez já está com o tratamento adequado para receber as camadas de cerâmica de acordo com as recomendações do fabricante. Isso é importante para a devida aderência desta camada de cerâmica sobre a estrutura. Sem este tratamento, é comum aparecer descolamentos que levarão ao enfraquecimento da restauração.

A peça já recebeu pigmentação na mesma etapa do processo de fundação. É importante que a aplicação respeite a morfologia do dente que será restaurado desde as primeiras camadas de cerâmica. Isso garantirá uma boa transição das cores e pode ser observado melhor no final do trabalho. Lembre-se sempre de respeitar a forma, pois um erro nesse quesito pode ser catastrófico.

Já a camada de dentina tem um papel importante na composição da cor da restauração. É ela que determinará o matiz e o croma de sua restauração. Por isso, o espaço que o técnico irá deixar para o esmalte influencia diretamente na cor final. Então, cuidado. Use inicialmente as recomendações do fabricante. Cada sistema muda a sua filosofia de trabalho e é importante acompanhar as pequenas diferenças entre eles para não ter resultados ruins.

Outro fator importante é perceber que os mamelões têm formatos assimétricos e volumes variados. Por isso, o técnico deve estar hábil e ter bons equipamentos de trabalho para conseguir detalhes tão pequenos. Quando está usando cerâmica muito translúcida, é interessante preencher as proximais até a altura do terço médio, para não reduzir o valor da restauração.

A massa de incisal é aplicada para simular a continuidade da dentina, sobrepondo a camada de dentina já aplicada. O aumento é realizado seguindo a ideia de tornar cada vez mais fina esta borda que irá se formar a partir deste acréscimo de massa incisal do seu sistema.

O efeito desejado é uma continuação de uma dentina que se torne mais translúcida e, por isso, devemos usar massas translúcidas. Neste caso, estou utilizando a massa de incisal do meu sistema por já ter noção do seu resultado. Caso contrário, é possível fazer um corpo-de-prova para testar a cor que se deseja usar.

Por fim, antes da primeira queima, aplica-se a massa de dentina opaca que foi usada primeiramente sobre o coping na região incisal. Porções pequenas e numerosas compõem o que chamamos de efeito mamelões. Sobre a camada de incisal, produziremos um efeito de tridimensionalidade.

Após a primeira queima, reposiciona-se a peça ao modelo e inicia-se a aplicação da última camada de esmalte.

Ajustes proximais e oclusais devem ser feitos. O acabamento e refino da morfologia e textura são elaborados usando pontas montadas de diamante, sempre de corte fino, tarja vermelha ou haste dourada. São as mais recomendadas para acabamento de cerâmica de cobertura. Borrachas diamantadas de silicone são ótimas para o polimento. O desgaste provocado por cada uma delas pode variar conforme as diferentes granulometrias. Procure a que melhor se ajusta ao seu sistema ou consulte um consultor da empresa. Por fim, usando pasta diamantada com escova de pelo, o brilho final é feito e a restauração é concluída.

Gostaria de dedicar esta matéria ao meu grande inspirador, o professor Paulo Kano, que me ensinou a entender como podemos pensar em dente e cerâmica, e conseguir reconstruir com maestria um elemento protético.

Leia também “Ganhando tempo (e dinheiro) na desinclusão”, coluna de David Morita na revista PróteseNews.

David Morita
David Morita
Técnico em prótese dentária – Senac; Proprietário do Laboratório e Instituto de Treinamento David Morita; Segundo secretário da Assembleia Administrativa da SBO Digital.