Adam Hamilton: a tecnologia a serviço da segurança
Alessandro Januário e Adam Hamilton, na ocasião do IN 2019, quando foi realizada a entrevista. (Imagem: Panóptica Multimídia)

Adam Hamilton: a tecnologia a serviço da segurança

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Em entrevista, Adam Hamilton fala sobre os achados de seus principais estudos e faz uma análise sobre o uso da Odontologia Digital.

Australiano radicado nos Estados Unidos, Adam Hamilton conduz pesquisas clínicas na área de Odontologia Digital, envolvendo moldagem, planejamento e protocolos de tratamentos. Formado na Universidade de Western, na Austrália, tem bacharelado em Ciências Odontológicas e doutorado em Prótese Dentária pela Universidade de Melbourne, também na Austrália. Depois de trabalhar durante cinco anos em consultórios odontológicos, recebeu uma bolsa de estudos do International Team for Implantology (ITI) e foi convidado para ingressar no corpo docente do Departamento de Odontologia Restauradora e Ciências dos Biomateriais da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, onde atualmente é professor do curso de pós-graduação em Implantodontia.

Adam Hamilton esteve em visita ao Brasil para participar do IN 2019. Na ocasião, a convite da ImplantNews, ele foi entrevistado por Alessandro Lourenço Januário, doutor em Periodontia e presidente da seção brasileira do ITI. Nesta conversa, Hamilton fala sobre os achados de seus principais estudos e faz uma análise sobre o uso da Odontologia Digital.

Alessandro Januário – Fale sobre a sua trajetória profissional e acadêmica.
Adam Hamilton – Sou da Austrália, fiz Odontologia e trabalhei em uma clínica particular durante muitos anos antes de me especializar em Prótese Dentária. Posteriormente, conheci o International Team for Implantology (ITI), onde encontrei ótimos mentores e fui incentivado a participar do ITI Scholarship, que me permitiu ir para o estado da Flórida (nos Estados Unidos). Durante um ano, estudei implantes, cirurgias e próteses, além de fazer especialização. E, durante aquele ano, fui selecionado e convidado a integrar a equipe da Universidade Harvard para lecionar Implantodontia.

AJ – Então, o ITI foi muito importante para a sua carreira. Pode falar mais sobre essa experiência?
AH – O ITI me ajudou desde a residência até a especialização, oferecendo recursos para realizar minha pesquisa enquanto eu cursava a especialização na Austrália. Pesquisamos as adaptações de diferentes pilares para implantes de diversas empresas, para avaliar se componentes fabricados por terceiros tinham adaptação tão boa quanto componentes originais, e descobrimos que este não era o caso. Depois do meu primeiro contato com o ITI, participei de muitos jantares, eventos, congressos e vi palestrantes incríveis. Mas, claro, os pontos principais de estudar com o ITI são os recursos, as publicações, os guias de tratamento. Desde que recebi a bolsa de estudos, tem sido a melhor organização com a qual tenho o prazer de colaborar.

AJ – Pode falar sobre a sua principal área de pesquisa?
AH – Realizo principalmente pesquisas clínicas e translacionais em três áreas distintas da tecnologia digital: moldagem, planejamento de implantes e protocolos de tratamentos diferenciados. Por exemplo, temos uma classificação para a colocação de implantes e protocolos de carga que tem sido desenvolvida e publicada há dois anos. Esta classificação gira em torno do conceito de que todo implante se submete à colocação e à aplicação da carga. Antigamente, costumava-se considerar estes dois fatores como atividades distintas. Agora sabemos que, para atingir o sucesso, é preciso combiná-los. Levanto uma questão: o sucesso de um implante recém-colocado está relacionado à aplicação de carga imediata ou de carga convencional? Ou não há diferença? Naturalmente, sabemos que há diferença, mas ninguém havia abordado isso. Então, fizemos uma classificação que visa um protocolo de tratamento associado para todas as nove combinações de colocação de implante e aplicação de carga. Estes dois conceitos não podem ser pensados separadamente.

AJ – Quando você começou a trabalhar com Odontologia Digital?
AH – A primeira vez que trabalhei com Odontologia Digital foi na época em que atuei em consultório particular, quando começamos a usar a tomografia computadorizada de feixe cônico, radiografia em 3D e planejamento digital. Foi há muito tempo, ainda era muito básico e primitivo. Devo dizer que nos últimos três anos houve um aumento no fluxo de trabalho e no modo como implementei a Odontologia Digital em cada parte do processo.

AJ – Houve uma grande mudança na Odontologia Digital nos últimos anos. Podemos considerar a tomografia computadorizada de feixe cônico uma das evoluções mais importantes?
AH – Definitivamente. É importante para entender a anatomia dos pacientes e suas especificidades e realizar a modelagem virtual, o diagnóstico e o plano de tratamento. Se pudermos combinar diagnóstico e plano de tratamento, a execução torna-se mais simples e direta. Acredito que a possibilidade de realizar a cirurgia em um ambiente virtual, com acesso às figuras anatômicas, é uma grande vantagem. A Odontologia Digital está evoluindo – e rápido.

AJ – Comparada à Odontologia analógica, quais seriam as melhores vantagens?
AH – A Odontologia está mudando com a digitalização. Antigamente, era como ir ao mecânico, em que podia-se ver a graxa nas mãos dele e toda a sujeira, mas agora busca-se um trabalho mais limpo. E trabalhar com computador é mais limpo e eficiente, com a possibilidade de alcançar resultados de alta qualidade e consistência, ou seja, mais previsibilidade. Gosto muito de utilizar o ambiente digital. O único problema da tecnologia é que, como sabemos, às vezes o computador não funciona. Então, pode ser um tanto frustrante quando há um problema desse tipo. A parte boa do analógico é como o alginato: nunca dá errado. Sempre se pode misturar com água e sempre vai funcionar. Acredito que a satisfação que alcançamos com a Odontologia Digital, a tecnologia avançada e o nível a que podemos levar um tratamento são muito superiores se comparados ao analógico.

AJ – No Brasil, um dos problemas que enfrentamos é o custo dos equipamentos. Vocês enfrentam o mesmo nos Estados Unidos e na Austrália?
AH – Isso é um problema mundial. Fazendo um paralelo com os computadores ou o telefone, assim que essas tecnologias surgiram, eram muito caras. Com o passar do tempo, tornaram-se acessíveis. Acredito que veremos mudanças nisso em relação à Odontologia, mas também temos que nos lembrar de como essa tecnologia impacta nossas práticas e possibilita recuperar os custos. E também como afeta a nossa satisfação e nosso prazer de trabalhar diariamente, que não podem ser medidos com dinheiro.

AJ – Quais dicas você daria para profissionais que desejam trabalhar com Odontologia Digital?
AH – É importante começar com protocolos de tratamento cientificamente comprovados na Odontologia Digital. É animador ir a uma palestra e observar avanços incríveis de tratamentos, desafiando os limites do que é possível. Porém, devemos lembrar de dar um passo atrás e pensar quais tecnologias estão presentes há mais tempo e funcionam bem. Também, garantir que não haverá complicações com este tratamento avançado. A tecnologia pode tornar o trabalho dos cirurgiões-dentistas mais estável e seguro, mas não devemos desafiar os limites – a menos que você seja um pesquisador e queira ser um precursor.